Crítica de Titane - O mais novo Body Horror de Julia Ducournau
- mindinmaia
- 24 de out. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 28 de jun. de 2022

Julia Ducournau, 38, diretora francesa que ficou conhecida pelo romance canibal Grave (2016), retorna com força ao Festival de Cinema de Cannes, trazendo sua obra mais madura, inquietante e estranha: Titane.
A trama acompanha Alexia, uma criança que, após sofrer um acidente de carro, passa por uma cirurgia, onde uma placa de titânio (daí o título do filme?) é colocada na região destruída de seu crânio, que deixa uma cicatriz bem característica. Anos depois, nossa protagonista (já protagonizada por Agathe Rousselle) ganha a vida como dançarina que, após algumas desventuras, precisa assumir outra identidade e lidar com algo que vem crescendo internamente.

Neste ano, na 74 edição do Festival de cinema de Cannes,
Spike Lee protagonizou o maior spoiler da premiação ao “entregar” o ganhador da Palma de Ouro antes da hora. Sim, Titane é o detentor do prêmio máximo do festival, dando a Ducournau o título de primeira mulher a conseguir tal feito sozinha. Isto, porque, em 1993, a diretora Jane Campion havia dividido a Palma com Chen Kaige, fazendo da Julia, teoricamente, a segunda mulher a receber a premiação.

Titane é claramente um Body Horror, sub gênero do terror que explora violações gráficas e psicológicas extremas no corpo humano. Tais violações, porém, são comumente vistas em separado: zumbificações, torturas, sexo extremo etc. Muito de suas características remetem trabalhos da literatura gótica, daí a possível origem e inspiração cinematográfica. Mas, então, qual seria a diferença entre este gênero e um Slasher ou Splatter, por exemplo? Bem, a primordial seria que, embora a mutilação e o gore seja comum a eles, no Slasher/Splatter a agressão vem através de um terceiro, de um agente do caos, isentando seu corpo de qualquer “culpa”, enquanto que no Body Horror a pessoa sofre a agressão extrema por conta de uma perda do controle corporal e/ou intelectual, seja por uma doença, mutação ou algo que desgaste a carne de forma impactante, devagar e dolorosamente. E é isso que encontramos em Titane.

Repleto de metáforas e simbolismos, o longa foi claramente concebido para incomodar, tirar da zona de conforto qualquer mero fã de Cronenberg. Aliás, aqui encontramos algumas homenagens, principalmente a Crash – Estranhos Prazeres (1996). A construção da personalidade de Alexia é vaga pela passagem de tempo entre seu acidente, ainda criança, e a atualidade, porém, a diretora pontua de forma não didática alguns elementos que nos permite construir um arquétipo da garota, desde um abraço no carro que quase lhe tira a vida até uma sequência de dança caliente no capô de um carro em chamas.
Agathe Rousselle se dá por completo aqui. A atriz encarna e desencarna as várias camadas que permeiam a consciência de Alexia que, junto às cenas mais fortes, causa olhares desviados a todo momento. Porém, a curva de destaque se inverte quando temos a adição de Vincent (Vincent Lindon), bombeiro que vive o drama do desaparecimento do filho, Adrien, e encontra uma nova (e diferente) forma de viver. O elenco ainda conta com nomes como Garance Marillier, atriz que esteve com Julia, protagonizando Grave, porém, sem destaque aqui.

Ainda sem data para estrear aqui no Brasil, Titane já é um sucesso de crítica e do gênero, que eleva Julia Ducournau ao patamar em que homens, em esmagadora maioria, chegaram. O que foi criado aqui é austero e jocoso, caminhando pelo olhar de quem já mostrou de forma nua e “crua” os extremismos do corpo e como, de alguma forma, nos impacta. O hiato de 5 anos (desconsiderando Servant) mostrou que a gestação rendeu um parto hediondo, inesquecível e extremamente vil, aos pequenos olhos.
★★★★☆ 4/5








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